TDAH em adultos: como ele realmente se manifesta?

Por muito tempo, o Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH) foi entendido como uma condição exclusivamente infantil. Hoje, sabemos que isso não é verdade: o TDAH apresenta elevada persistência ao longo do desenvolvimento. Estudos longitudinais sugerem que uma parcela significativa das pessoas diagnosticadas na infância continua apresentando sintomas e prejuízos relacionados ao transtorno na idade adulta. As estimativas de persistência variam conforme a população estudada e os critérios diagnósticos utilizados. Além disso, alguns adultos apresentam sintomas residuais e prejuízos funcionais mesmo sem preencher todos os critérios diagnósticos para o transtorno.

Estima-se que aproximadamente 2,8% dos adultos apresentem TDAH, embora as taxas encontradas em diferentes estudos variem.

A imagem da criança que não consegue permanecer sentada na sala de aula não representa necessariamente a forma como o transtorno aparece em um adulto. Ao longo do desenvolvimento, a expressão dos sintomas pode se modificar. A hiperatividade motora, por exemplo, pode diminuir, enquanto a inquietude interna, a dificuldade de relaxar e a necessidade constante de estar ocupado podem se tornar mais evidentes.

Os impactos também mudam de acordo com as demandas da vida adulta e podem aparecer no trabalho, nos estudos, nos relacionamentos, na organização da rotina e na autoestima.

Se você vive com a sensação de potencial não realizado, desorganização persistente ou de que precisa fazer um esforço muito maior do que as outras pessoas para dar conta das tarefas cotidianas, este artigo pode ajudar a entender como o TDAH pode se manifestar na vida adulta. Mas, vale lembrar que uma avaliação médica criteriosa não deve ser substituída, já que existem outras condições de saúde que se manifestam com sintomas semelhantes.

A transição dos sintomas: da infância para a vida adulta

À medida que o cérebro amadurece e as demandas da vida aumentam, os sintomas do TDAH podem assumir diferentes formas.

Uma criança pode apresentar maior dificuldade para permanecer sentada ou esperar sua vez. Já um adulto pode sentir uma inquietação constante, ter dificuldade para desacelerar ou precisar estar sempre fazendo alguma coisa.

Podemos compreender as manifestações mais comuns do TDAH no adulto a partir de três grandes dimensões:

1.  Desatenção e dificuldade de organização

Não se trata simplesmente de “esquecer a chave de casa” de vez em quando. O que caracteriza o TDAH é um padrão persistente de dificuldades de atenção e funções executivas, capaz de interferir no funcionamento cotidiano.

Alguns exemplos são:

Procrastinação: dificuldade para iniciar ou concluir tarefas, especialmente aquelas que são longas, pouco estimulantes ou exigem esforço mental prolongado.

Dificuldade de organização: problemas para planejar, priorizar e acompanhar diferentes tarefas e compromissos.

Erros por descuido: deixar passar detalhes importantes em relatórios, trabalhos, mensagens ou outras atividades.

Dificuldade de escuta: perder partes de uma conversa, especialmente quando o assunto é pouco estimulante ou exige atenção prolongada.

Esquecimentos frequentes: perder prazos, compromissos, objetos ou informações importantes do cotidiano.

Má gestão do tempo: subestimar ou superestimar o tempo necessário para realizar uma tarefa e ter dificuldade para cumprir horários.

2.  Hiperatividade e inquietação

No adulto, a hiperatividade pode se tornar menos evidente do ponto de vista motor, mas não necessariamente desaparece.

Ela pode se manifestar como:

Sensação interna de inquietação: dificuldade de permanecer parado ou de simplesmente “não fazer nada”.

Necessidade constante de atividade: sensação de precisar estar sempre ocupado ou produzindo alguma coisa.

Dificuldade para relaxar: mesmo em momentos de descanso, a pessoa pode sentir necessidade de realizar alguma atividade.

Inquietação motora: mexer frequentemente mãos ou pés, mudar de posição ou ter dificuldade para permanecer sentado por períodos prolongados.

É importante lembrar que nem todo adulto com TDAH apresenta hiperatividade evidente. Alguns apresentam predominantemente sintomas de desatenção.

3.  Impulsividade e dificuldades na regulação emocional

A impulsividade também pode assumir formas diferentes na vida adulta. Alguns exemplos incluem:

Interromper os outros: responder antes que a pergunta seja concluída ou interromper conversas.

Tomar decisões precipitadas: agir antes de avaliar adequadamente as consequências.

Dificuldade para esperar: sentir grande desconforto diante de situações que exigem espera ou adiamento de uma recompensa.

Impaciência: dificuldade em lidar com situações lentas, repetitivas ou pouco estimulantes.

Além dos sintomas nucleares do TDAH, muitos adultos apresentam dificuldades de regulação emocional, como maior reatividade diante da frustração, irritabilidade e dificuldade para modular a intensidade das emoções. Embora essas características sejam frequentes e clinicamente importantes, elas não fazem parte dos critérios diagnósticos nucleares do TDAH.

O impacto do TDAH no trabalho e na vida acadêmica

O ambiente profissional e acadêmico exige justamente algumas habilidades que podem ser particularmente desafiadoras para pessoas com TDAH: organização, planejamento, priorização, gerenciamento do tempo e manutenção da atenção em tarefas pouco estimulantes.

Sem estratégias adequadas, o adulto com TDAH pode enfrentar dificuldades

como:

Grande variação no desempenho: conseguir produzir muito em determinadas situações e ter dificuldade significativa em outras, especialmente quando a tarefa é pouco estimulante ou exige atenção prolongada.

Foco intenso em atividades estimulantes: algumas pessoas relatam a capacidade de permanecer profundamente envolvidas durante longos períodos em atividades que despertam muito interesse. Esse fenômeno é frequentemente chamado de “hiperfoco”, embora não seja um sintoma diagnóstico formal do TDAH.

Esforço cognitivo elevado: determinadas tarefas cotidianas podem exigir um esforço mental muito maior para serem realizadas de maneira consistente.

Sensação de baixo desempenho: dificuldades específicas de organização, atenção ou gerenciamento do tempo podem ser interpretadas como falta de capacidade, mesmo quando a pessoa apresenta bom desempenho em outras áreas.

Esgotamento: o esforço constante para compensar dificuldades de atenção e organização pode contribuir para cansaço mental e sensação de sobrecarga.

É justamente essa discrepância que pode ser bastante frustrante: a pessoa sabe que é capaz de realizar determinada tarefa, mas não consegue reproduzir esse desempenho de maneira consistente.

Por que tantos adultos só recebem o diagnóstico mais tarde?

O TDAH pode passar despercebido durante muitos anos.

Algumas pessoas desenvolvem estratégias próprias para compensar as dificuldades. Outras crescem em ambientes altamente estruturados, nos quais pais, professores ou outras pessoas ajudam a organizar a rotina.

Além disso, adultos podem apresentar menos hiperatividade motora do que na infância, tornando o transtorno menos evidente.

Não é incomum que o diagnóstico aconteça apenas na vida adulta, às vezes após o diagnóstico de um filho, durante uma investigação por dificuldades persistentes no trabalho ou nos estudos, ou quando as estratégias que funcionavam anteriormente deixam de ser suficientes diante do aumento das responsabilidades.

Muitos desses adultos passaram anos interpretando suas dificuldades como características pessoais: “sou desorganizado”, “sou preguiçoso”, “não tenho disciplina”, “sou distraído demais” ou “não consigo terminar nada”.

O diagnóstico adequado pode ajudar a separar dificuldades relacionadas ao transtorno de julgamentos sobre caráter ou capacidade pessoal. Mais do que explicar o passado, ele permite identificar estratégias de tratamento e de adaptação mais eficazes para o presente.

Como funciona o tratamento na vida adulta?

O tratamento do TDAH em adultos deve ser individualizado e pode envolver diferentes estratégias, de acordo com as necessidades de cada pessoa.

Tratamento medicamentoso

Medicamentos estimulantes e não estimulantes podem reduzir os sintomas do TDAH e melhorar o funcionamento cotidiano. A escolha do medicamento depende de diversos fatores, incluindo características clínicas, presença de outros transtornos, efeitos adversos, contraindicações e resposta individual ao tratamento.

A medicação deve ser prescrita e acompanhada por profissional médico habilitado.

Psicoterapia

A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) pode ser particularmente útil para adultos com TDAH, auxiliando no desenvolvimento de estratégias para organização, planejamento, gerenciamento do tempo, redução da procrastinação e enfrentamento das dificuldades emocionais associadas ao transtorno.

Estratégias de organização e estilo de vida

Algumas medidas também podem contribuir para o funcionamento cotidiano,

como:

● estabelecer rotinas previsíveis;

● utilizar agendas, listas e lembretes;

● dividir tarefas grandes em etapas menores;

● utilizar alarmes e outros recursos externos;

● organizar o ambiente para reduzir distrações;

● manter uma rotina regular de sono;

● praticar atividade física regularmente.

Essas estratégias não substituem o tratamento quando ele é necessário, mas podem funcionar como importantes ferramentas de suporte.

Conclusão

O TDAH na vida adulta não significa simplesmente “ser distraído” ou “não conseguir se organizar”. Trata-se de um transtorno do neurodesenvolvimento que pode afetar atenção, organização, gerenciamento do tempo, controle dos impulsos e, frequentemente, a capacidade de regular as emoções.

Ao mesmo tempo, é importante lembrar que ter TDAH não determina a capacidade intelectual, profissional ou acadêmica de uma pessoa. Muitos adultos desenvolvem estratégias eficazes para lidar com suas dificuldades e apresentam excelente desempenho em diferentes áreas.

Quando as dificuldades são persistentes e interferem no trabalho, nos estudos, nos relacionamentos ou na qualidade de vida, uma avaliação especializada pode ajudar a compreender o que está acontecendo e diferenciar o TDAH de outras condições que podem produzir sintomas semelhantes.

Reconhecer o TDAH não significa colocar um rótulo sobre a pessoa. Significa compreender melhor suas dificuldades para encontrar formas mais eficazes de lidar com elas.

Referências Bibliográficas

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