Férias escolares: a criança precisa de rotina?

As férias escolares chegaram e, com elas, uma mudança drástica no dia a dia das famílias. Se por um lado os pais respiram aliviados por não precisarem acordar tão cedo para levar os filhos à escola, por outro surge um dilema comum nos consultórios de psiquiatria infantil: será que a criança precisa de rotina nas férias?

Muitos pais acreditam que as férias devem ser um período de total liberdade, sem horários e sem regras. No entanto, a neurociência e a psicologia do desenvolvimento nos mostram que a flexibilidade excessiva pode, na verdade, gerar ansiedade, irritabilidade e distúrbios do sono nos pequenos.

Neste artigo, vamos entender como equilibrar o descanso necessário com a estabilidade que o cérebro infantil precisa para se manter saudável.

Por que o cérebro infantil precisa de previsibilidade?

O cérebro das crianças está em pleno desenvolvimento. Para elas, a rotina não é um sinônimo de monotonia, mas sim de segurança. Saber o que vai acontecer ao longo do dia reduz a ansiedade e ajuda na regulação emocional.

Quando retiramos completamente os marcos do dia (como horário de acordar, comer e dormir), a criança perde a sua referência de tempo. O resultado disso, frequentemente observado inclui:

●         Crises de birra e oscilações bruscas de humor;

●         Resistência na hora de ir para a cama;

●         Alterações no apetite.

Portanto, manter uma rotina infantil nas férias não significa replicar a rigidez do período letivo, mas sim criar uma nova estrutura, mais leve e maleável.

O grande vilão das férias: o excesso de exposição às telas

Com mais tempo livre em casa, o acesso a smartphones, tablets, televisões e videogames se torna a saída mais fácil para entreter as crianças. É aqui que precisamos ligar o sinal de alerta. A superexposição a estímulos visuais rápidos e recompensas imediatas (comuns em vídeos curtos e jogos) deixa o cérebro infantil exausto e menos propenso a tolerar o tédio.

As recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Organização Mundial da Saúde (OMS) são claras quanto aos limites diários:

Idade da criançaTempo de tela recomendado
Menores de 2 anosZero (evitar ao máximo)
2 a 5 anosNo máximo 1 hora por dia (com supervisão)
6 a 10 anosNo máximo 1 a 2 horas por dia
11 a 18 anosNo máximo 2 a 3 horas por dia (evitando a madrugada)

Como o excesso de telas prejudica o sono?

A luz azul emitida pelos aparelhos inibe a produção de melatonina, o hormônio do sono. Crianças que usam telas até tarde demoram mais para dormir, têm um sono mais superficial e acordam mais irritadas no dia seguinte, alimentando um círculo vicioso de estresse familiar.

Como montar uma rotina flexível para as férias?

Se você está se perguntando como aplicar isso na prática sem transformar as férias em um quartel-general, a palavra-chave é flexibilidade. Aqui estão algumas orientações práticas:

1.  Mantenha os horários das refeições e do sono (com margem de erro)

Tudo bem deixar a criança dormir e acordar um pouco mais tarde, mas tente não estender esse prazo por mais de 1 hora ou 1 hora e meia do horário habitual da escola. O relógio biológico da criança agradece.

2.  Estimule o “ócio criativo” e o tédio

Os pais não precisam ser animadores de torcida em tempo integral. O tédio é saudável. É a partir dele que a criança desenvolve a criatividade, inventa novas brincadeiras e aprende a tolerar a frustração.

3.  Planeje atividades ao ar livre

Substitua o tempo de tela por contato com a natureza, idas ao parque, andar de bicicleta ou brincadeiras que envolvam movimento físico. A atividade física ajuda a gastar energia e melhora a qualidade do sono noturno.

4.  Crie um cronograma visual com as crianças

Inclua os pequenos na organização. Faça um cartaz simples mostrando que o dia tem momento para acordar, brincar, usar telas (dentro do limite), ajudar em alguma tarefa da casa e descansar. Quando a criança visualiza o que é esperado dela, a resistência diminui.

Conclusão: o equilíbrio é o melhor remédio

Férias escolares servem para descansar, brincar e fortalecer os vínculos familiares. Não se culpe se em alguns dias a rotina sair completamente dos trilhos — isso também faz parte da vida!

O segredo está em não deixar que a exceção vire regra. Garantir uma estrutura básica e proteger a saúde mental do seu filho contra o excesso de telas fará com que o retorno às aulas, daqui a algumas semanas, seja muito mais suave, saudável e sem traumas.

Se você notar que, mesmo com ajustes, seu filho apresenta extrema irritabilidade, alterações severas de sono ou isolamento, vale a pena conversar com um especialista em saúde mental infantil.

Referências Bibliográficas

●          Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Manual de Orientação: Menos Telas, Mais Saúde. Departamento Científico de Pediatria do Desenvolvimento e Comportamento, 2022.

●          Organização Mundial da Saúde (OMS). Diretrizes sobre atividade física, comportamento sedentário e sono para crianças menores de 5 anos de idade. Genebra: OMS, 2019.

●          American Academy of Pediatrics (AAP). Council on Communications and Media. Media and Young Minds. Pediatrics, 2016.

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Dra. Laura Trevizan

Psiquiatra