Maternidade e saúde mental: o que toda mãe deveria saber

Estamos em maio, mês em que se comemora o Dia das Mães. Propagandas e lembretes por todo lado! Neste mês, é enaltecido esse papel. A chegada de um filho é frequentemente descrita como o momento mais sublime da vida de uma mulher. No entanto, por trás das fotos ideais em redes sociais, existe uma realidade complexa e, muitas vezes, silenciosa: a profunda transformação da saúde mental materna.

Como psiquiatra da infância, vejo diariamente que o cuidado com o bebê começa, invariavelmente, pelo cuidado com a mãe. Entender o que acontece com a mente feminina durante essa transição — a chamada matrescência — é o primeiro passo para uma jornada mais leve e saudável.

O fenômeno da matrescência 

Assim como a adolescência, a matrescência é um período de transição antropológica e biológica. Não é apenas o bebê que nasce; nasce uma nova identidade. Essa mudança envolve: 

Alterações neurobiológicas: O cérebro da mãe passa por uma “poda sináptica” para se tornar mais atento às necessidades do bebê. 

Flutuações hormonais drásticas: A queda brusca de estrogênio e progesterona no pós-parto impacta diretamente os neurotransmissores responsáveis pelo humor. 

Baby blues vs. depressão pós-parto 

É fundamental saber diferenciar o que é esperado do que exige intervenção médica: 

Baby blues: Atinge até 80% das mulheres. Surge nos primeiros dias após o parto e envolve choro fácil, labilidade emocional, irritabilidade, ansiedade, hipersensibilidade, sensação de sobrecarga, alterações do sono e fadiga. Os sintomas costumam oscilar ao longo do dia e desaparecem espontaneamente em cerca de duas semanas. 

Depressão pós-parto: É mais profunda e persistente. Inclui alteração de humor sustentada, sentimentos de desvalia, falta de conexão com o bebê, alterações de sono (mesmo quando o bebê dorme) e pensamentos intrusivos. Em casos mais graves, ideação suicida e/ou sintomas psicóticos podem estar presentes. A depressão pós parto não é uma escolha ou falta de amor; é uma condição médica que requer tratamento.

 A carga mental e a “mãe perfeita” 

A pressão social pela “mãe perfeita” é um dos maiores gatilhos para transtornos de ansiedade. A exaustão não vem apenas das tarefas físicas, mas da carga mental: a responsabilidade invisível de planejar, lembrar e gerenciar a vida da criança e da casa. 

“A mãe que cuida precisa ser cuidada. A saúde mental materna é o alicerce de todo o desenvolvimento infantil.”

Estratégias de preservação mental 

Para navegar por essa fase com mais equilíbrio, algumas práticas são essenciais:

1. Rede de apoio real: Não tenha medo de delegar. Aceite ajuda para tarefas domésticas para que você possa descansar ou focar no bebê. 

2. Sono fracionado, mas de qualidade: A privação de sono é um fator de risco enorme para episódios depressivos. Tente priorizar o repouso sempre que possível. 

3. Autocompaixão: Abandone a culpa. Entenda que cometer erros faz parte do processo e que o “bom o suficiente” é muito melhor do que o “perfeito”. 

4. Acompanhamento profissional: Se a tristeza for paralisante ou a ansiedade impedir o funcionamento diário, procure um psiquiatra. Existem tratamentos seguros, inclusive para mães que amamentam. 

Conclusão

Maternar é um ato de entrega, mas você não precisa se anular no processo. Estar atenta aos sinais do seu corpo e da sua mente é um ato de amor por você e pelo seu filho. Se as coisas parecerem pesadas demais, você não está sozinha e existe ajuda disponível.

Referências Bibliográficas 

American Psychiatric Association (APA). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-5-TR). 

Postpartum Support International (PSI). Perinatal Mental Health Overview. 

SAXBE, D. E., et al. The Transitions to Parenthood: Annual Review of Psychology, 2020. ● World Health Organization (WHO). Maternal Mental Health.

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Dra. Laura Trevizan

Psiquiatra