Cuidar da mente com o corpo: como o exercício físico ajuda na saúde mental

A prática regular de exercícios físicos é reconhecida como um importante fator de promoção da saúde geral e exerce um papel fundamental na saúde mental. Diversos estudos demonstram que a atividade física pode contribuir tanto para a prevenção quanto para o tratamento complementar de transtornos mentais.

Atividade física e exercício físico são a mesma coisa?

Toda prática de exercício físico é uma forma de atividade física, mas nem toda atividade física é um exercício.

Atividade física é qualquer movimento corporal produzido pelos músculos esqueléticos que resulta em gasto de energia acima do repouso. Isso inclui qualquer movimento do corpo no dia a dia — como caminhar até o trabalho, subir escadas, brincar com filhos, tarefas domésticas e deslocamentos ativos (bicicleta, ir a pé). Ou seja: não precisa ser planejada nem estruturada!

Já o exercício físico é uma prática planejada, estruturada, repetitiva e com objetivo de melhorar ou manter a aptidão física. Exemplos: musculação, corrida, pilates, natação, treino funcional etc. Aqui existe intencionalidade e prescrição (mesmo que informal).

Para muitos pacientes (especialmente no contexto de depressão, ansiedade ou puerpério), começar com atividade física já é um passo terapêutico importante! Isso reduz barreiras do tipo “não consigo fazer academia” e ajuda na construção gradual de rotina → podendo evoluir para exercício físico.

Como o exercício físico impacta a saúde mental?

Durante a prática, o organismo libera substâncias como endorfinas e dopamina, que são associadas à sensação de bem-estar, prazer e regulação do humor. Além disso, o exercício contribui para a redução dos níveis de cortisol, hormônio relacionado ao estresse.

Entre os principais benefícios observados estão:

  • Redução dos sintomas de ansiedade e estresse
  • Auxílio no controle de sintomas depressivos
  • Melhora da qualidade do sono
  • Aumento da disposição e da energia
  • Melhora da autoestima e da percepção corporal
  • Contribuição para a organização da rotina e disciplina

Quanto tempo é recomendado?

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que adultos realizem entre 150 e 300 minutos por semana de atividade física moderada — como caminhada acelerada — ou entre 75 e 150 minutos de atividade vigorosa, como corrida. Esse tempo pode ser distribuído ao longo da semana.

Para crianças e adolescentes, a recomendação é de pelo menos 60 minutos diários de atividade física, preferencialmente envolvendo brincadeiras ativas ou esportes. Não precisa ser treino estruturado: correr, pular e brincar já têm impacto importante na saúde física e mental.

Exercício físico como parte do cuidado em saúde mental

Embora o exercício físico não substitua o acompanhamento médico ou psicológico quando indicado, ele pode ser utilizado como estratégia complementar ao tratamento. Em quadros leves a moderados de ansiedade e depressão, a prática regular de exercícios pode potencializar os resultados terapêuticos.

É importante que a recomendação seja individualizada, respeitando condições clínicas, limitações físicas e preferências do paciente, evitando excessos ou práticas inadequadas.

Como começar quando está difícil?

Se começar parece difícil, comece pequeno! Cinco minutos de movimento já são suficientes para sair da inércia. Não é preciso fazer um treino estruturado: caminhar, brincar com os filhos ou se alongar em casa já contam. Na saúde mental, a regularidade — mesmo imperfeita — costuma ser mais importante do que a intensidade.

Seguem algumas dicas:
– Comece pelo mínimo possível (mesmo que pareça pouco) > o objetivo inicial não é performance, é sair da inércia
– Troque “exercício” por “movimento” > isso reduz a barreira mental de “preciso treinar”
– Diminua a meta, aumente a frequência > pense em “todo dia um pouco”
– Vincule a algo que já existe na rotina > isso chama-se “ancoragem de hábito” — facilita muito a adesão
– Evite o pensamento tudo-ou-nada > consistência imperfeita é melhor que perfeição intermitente

Quando é necessário acompanhamento profissional?

Pacientes com transtornos mentais diagnosticados devem sempre manter acompanhamento com profissional habilitado. A introdução de exercícios físicos deve ser feita de forma gradual e, quando necessário, com orientação de educadores físicos e avaliação médica prévia.

O cuidado com a saúde mental é multifatorial e envolve hábitos de vida saudáveis, suporte social e acompanhamento especializado quando indicado.


Referências

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Diretrizes sobre atividade física e comportamento sedentário. Genebra: OMS, 2020.

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Practice guideline for the treatment of patients with major depressive disorder. Washington, DC: APA, 2010.

SADOCK, B. J.; SADOCK, V. A.; RUIZ, P. Compêndio de psiquiatria: ciência do comportamento e psiquiatria clínica. 11. ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.

BRASIL. Ministério da Saúde. Guia de atividade física para a população brasileira. Brasília: Ministério da Saúde, 2021.

BRASIL. Conselho Federal de Medicina. Código de Ética Médica. Brasília: CFM, 2019.

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Dra. Laura Trevizan

Psiquiatra