Se você recebeu a recomendação de tomar um antidepressivo, é perfeitamente normal que uma enxurrada de questionamentos tenha passado pela sua cabeça. Infelizmente, a saúde mental ainda é cercada de tabus e informações distorcidas na internet, o que faz com que muitas pessoas adiem um tratamento que poderia melhorar sua qualidade de vida. No meu consultório, percebo que os medos costumam ser muito parecidos. Pensando nisso, reuni aqui as 10 dúvidas que mais recebo dos meus pacientes para desmistificar de vez o uso dessas medicações. Vamos a elas?
1. Antidepressivo causa dependência?
Não. Esse é, sem dúvidas, o maior medo de quem tem indicação de usar algum medicamento desta classe. Os antidepressivos não causam dependência química ou vício. O que acontece é que, se retirados de forma abrupta e sem orientação, o corpo pode reagir à falta súbita da substância (chamamos isso de síndrome de descontinuação), além do risco dos sintomas da depressão ou ansiedade voltarem – principalmente nos casos em que o tempo proposto de uso não é respeitado. Para além do tratamento inicial (chamado de fase aguda), é necessário que haja um tempo de manutenção da medicação após a remissão sintomatológica, para só então se avaliar a possibilidade de redução de dose/descontinuação do uso. Essa avaliação é feita de forma individualizada, caso a caso, pelo psiquiatra. Não tente fazer mudanças em sua prescrição por conta própria, isso é bastante perigoso para a sua saúde!
2. Antidepressivo muda a personalidade?
De forma alguma. O antidepressivo não transforma quem você é, não tira a sua essência e nem te transforma em um “robô sem sentimentos”. O papel da medicação é regular os níveis de neurotransmissores (como serotonina, noradrenalina e dopamina) que estão em desequilíbrio. O objetivo é justamente fazer com que você volte a se sentir você mesmo, recuperando a capacidade de sentir prazer, alegria e estabilidade emocional. Caso esteja em uso de antidepressivos e sinta um achatamento emocional e com dificuldade em sentir adequadamente afetos positivos, comunique ao seu psiquiatra. Embora não seja a única hipótese – esse sintoma pode ser da própria depressão – é possível que seja um efeito colateral. Nesse caso, o médico poderá te apresentar alternativas para lidar com isso.
3. Quanto tempo leva para fazer efeito e por quanto tempo vou precisar tomar? É para sempre?
O efeito não é imediato. Os antidepressivos costumam demorar no mínimo 2 semanas para começarem a dar os primeiros sinais de melhora. Sobre o tempo de uso: na maioria dos casos, não é para sempre. Em um primeiro episódio de depressão ou ansiedade costuma ser mantido o tratamento farmacológico por cerca de 6 a 12 meses após o paciente estar em remissão (fase de manutenção). Casos de recaídas frequentes/cronicidade do transtorno, podem exigir tratamentos mais longos e até ser proposto uso contínuo do fármaco, mas a duração é sempre individualizada.
4. O que acontece se eu parar o antidepressivo de repente?
Parar por conta própria é uma armadilha perigosa. Você pode experimentar a síndrome de descontinuação, que causa tonturas, náuseas, dores de cabeça, irritabilidade e uma sensação de “choques” na cabeça / pelo corpo. Além disso, a interrupção brusca aumenta as chances de recaída dos sintomas e piora global do quadro.
5. Como funciona o desmame do antidepressivo?
A descontinuação de um psicofármaco é um processo gradual, planejado e monitorado pelo psiquiatra. Em alguns casos, a suspensão abrupta (de um dia para o outro) por ser sim uma estratégia válida e de muito sucesso. Mas, há casos em que a orientação é que seja feita uma redução mais lenta de dose — ao longo de dias ou semanas. A estratégia adotada pelo médico levará em conta fatores individuais, ambientais e, claro, o tipo específico de medicamento que o paciente está em uso. Só iniciamos a retirada quando o paciente estiver em remissão já há algum tempo e com as medidas não farmacológicas em dia. Outro motivo para que seja proposto um desmame é quando há falha de resposta e será feita troca por outra medicação.
6. Antidepressivo engorda? Existe algum que ajuda a emagrecer?
A relação com o peso depende do tipo de molécula. Alguns antidepressivos podem, sim, aumentar o apetite – levando consequentemente ao aumento de peso – que, por vezes, pode até mesmo ser desejado (como a Mirtazapina ou a Paroxetina). Outros são considerados neutros. Existem opções, como a Bupropiona, que costumam diminuir o apetite e podem ajudar no controle do peso, sendo muito usada também para quem quer parar de fumar. A escolha do remédio sempre leva em consideração o perfil físico/antropométrico do paciente.
7. Antidepressivo diminui a libido?
Algumas classes — especialmente os ISRS (como Paroxetina, Fluoxetina, Sertralina e Escitalopram) — podem causar efeitos colaterais sexuais, como redução do desejo ou dificuldade para chegar ao orgasmo. No entanto, a própria depressão costuma acometer muito mais a libido do que a própria medicação – e, nesses casos, após uma melhora clínica global a libido tende inclusive a melhorar/normalizar. Vale lembrar, inclusive, que a libido é multifatorial. Mas, se os efeitos colaterais sexuais surgirem e persistirem após as primeiras semanas de uso da medicação, converse com o seu médico. É possível lançar mão de algumas estratégias como ajuste a dose, troca de medicação ou associar outro fármaco, além das medidas não farmacológicas.
8. O que fazer quando o antidepressivo causa efeitos colaterais?
Nas duas primeiras semanas, é comum sentir náuseas, dor de cabeça leve, boca seca ou alterações no sono. O segredo é paciência: a maioria desses efeitos desaparece espontaneamente conforme o tempo passa e o corpo se adapta. Se os sintomas forem muito desconfortáveis, o manejo deve ser feito em consulta médica. Não suspenda a medicação sozinho!
9. Crianças e adolescentes podem tomar antidepressivo?
Sim, quando há indicação criteriosa. O diagnóstico em crianças e adolescentes exige cautela, e o tratamento de escolha inicial pode ser a psicoterapia. Porém, em casos moderados a graves, o uso de antidepressivos específicos (e autorizados para a faixa etária) é fundamental e seguro, desde que acompanhado de perto pelo psiquiatra da infância e adolescência e pela família.
10. Posso tomar antidepressivo e consumir bebidas alcoólicas?
A recomendação mais ampla é evitar, especialmente no início do tratamento. O álcool é um depressor do sistema nervoso central e seu uso pode confundir os efeitos do antidepressivo – pode potencializar a sonolência, tontura e prejudicar o fígado (principalmente em casos de metabolização hepática da medicação). Além disso, alguém que está iniciando uso dessa classe de medicação via de regra está passando por sintomas ansiosos e de humor clinicamente significativos, e sabemos que o álcool pode, por si, exacerbar estes sintomas e prejudicar o quadro de base, independente do uso de medicações. Em fases de manutenção, quando o paciente já está estável, o consumo esporádico e moderado (uma taça de vinho, por exemplo) pode ser discutido e não mais expressamente contraindicado.
Nota da psiquiatra: Tratar a saúde mental é um ato de coragem e autocuidado. Nenhuma dúvida é boba ou irrelevante quando o assunto é o seu bem-estar. Não tenha vergonha de perguntar nada ao seu médico! Se na hora da consulta ‘deu branco’ e esqueceu de perguntar, anote e leve sua dúvida na próxima consulta. Se você precisa iniciar ou ajustar seu tratamento, agende uma consulta para desenharmos juntos o melhor caminho.
Referências Bibliográficas
Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Diretrizes para o tratamento de Transtornos Depressivos. Rio de Janeiro: ABP; 2023. Sadock, B. J.,
Sadock, V. A., & Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria: Ciência do Comportamento e Psiquiatria Clínica. 11. ed. Porto Alegre: Artmed; 2017.
Stahl, S. M. Psicofarmacologia: Base Neurocientífica e Aplicações Práticas. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2021.
National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Depression in adults: recognition and management [NICE Guideline NG222]. London: NICE; 2022.