Remédio psiquiátrico vicia? Entenda a Verdade

Muitas pessoas têm receio de procurar um psiquiatra por medo de que o remédio psiquiátrico vicie. Bom, a começar por aqui, ir a uma avaliação psiquiátrica não significa sair de lá fazendo uso de medicamentos. Os remédios fazem parte das ferramentas de tratamento, mas longe de serem as únicas!

Posto isso, esse é um dos mitos mais comuns sobre o tratamento, e acaba atrasando (e muito!) o início de um cuidado adequado.

A verdade é que, quando prescritos corretamente, a maioria dos medicamentos psiquiátricos não causa dependência e, em muitas situações, são fundamentais para a recuperação da saúde mental.

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Por que existe esse mito?

O medo de “ficar dependente” surge porque algumas pessoas confundem uso contínuo com vício. Assim como remédios para hipertensão, diabetes ou colesterol alto, alguns tratamentos psiquiátricos precisam ser usados por períodos prolongados para garantir equilíbrio e estabilidade.

Além disso, a interrupção abrupta sem orientação pode gerar o que chamamos de efeito de retirada / sintomas de descontinuação — que é quando o paciente apresenta sintomas desagradáveis como dores de cabeça, náusea, tontura, sensação de estar ‘aéreo’, formigamentos entre outros. Isso geralmente acontece porque alguns medicamentos necessitam de redução gradual de dose para sua descontinuação, e só um médico poderá te orientar não só a melhor forma, mas o melhor momento de fazê-lo.

Parar de tomar medicamentos de prescrição controlada sem orientação é arriscado para a saúde podendo trazer desde as sensações desagradáveis citadas, até mesmo crises convulsivas – a depender da classe do medicamento em uso – e sintomas incapacitantes, que atrapalham a funcionalidade do indivíduo (que não consegue mais se concentrar no trabalho, ou desregula a rotina de sono, por exemplo).

Outra situação frequente é o próprio retorno ou intensificação dos sintomas, após a parada do tratamento por conta própria. Costumo dizer aos pacientes que experimentam o retorno do quadro que os levaram a buscar ajuda (muitas vezes por se sentirem bem e pensarem “não preciso mais disso”), que não é o remédio que está causando o quadro de saúde dele, e sim uma ferramenta para redução dos sintomas e sofrimento. Muitos associam o uso do medicamento a ter um transtorno mental, materializando a existência de seu desequilíbrio naqueles comprimidos, e como se não tomar o remédio pudesse fazer a sua condição deixar de existir.

Outro mecanismo super importante – além da dependência – é o mecanismo de tolerância. A tolerância ocorre quando necessitamos de doses cada vez maiores para obtermos a mesma resposta. Isso acontece com várias classes de medicamentos em toda a Medicina.

Aposto que você já tenha ouvido a história de alguém que começou a tomar remédio para dormir e precisou aumentar as doses mais e mais para que o sono chegasse. Pois é! Isso pode acontecer com alguns medicamentos específicos (como os benzodiazepínicos, por exemplo), principalmente quando se faz um uso indiscriminado e sem acompanhamento médico!

Mas, felizmente, a maioria dos medicamentos utilizados na Psiquiatria não apresentam esse efeito! Ajustes de dose de antidepressivos – por exemplo – são comuns, ainda mais em início de tratamento em que buscamos a melhor resposta terapêutica. Mas, nesse caso, ajustar dose não tem nenhuma relação com o remédio estar ‘deixando de fazer efeito’.

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Verdades sobre os remédios psiquiátricos:

  • Não causam vício quando usados corretamente: a maioria dos fármacos utilizados na psiquiatria não gera dependência e nem tolerância. E, os que apresentam esse risco (como os benzodiazepínicos), são seguros quando usados sob orientação e supervisão médica.
  • Podem ser essenciais no tratamento: quando bem indicados, auxiliam nos dois principais pilares do tratamento – redução de sofrimento e melhora da funcionalidade global do paciente.
  • Precisam de acompanhamento: apenas o médico capacitado pode indicar o tipo de medicamento, a dose certa e o tempo de uso adequado.
  • Podem ser suspensos com segurança: quando o tratamento atinge seus objetivos e se a descontinuação do medicamento for uma opção.

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Por que confiar no psiquiatra?

O psiquiatra avalia cada caso de forma individualizada, considerando:

  • Histórico clínico e emocional
  • Necessidade real de medicação (ir a uma consulta psiquiátrica não é sinônimo de precisar tomar remédio!)
  • Melhores intervenções indicadas para cada caso (por exemplo encaminhamento para psicoterapia ou indicação de outras mudanças na rotina / estilo de vida)
  • Programação do tratamento como um todo (frequência de consultas, tempo de uso dos medicamentos)

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Conclusão

Os transtornos mentais sem tratamento são neurotóxicos para o cérebro!

Converse com o seu médico para entender qual a melhor abordagem de tratamento para você.

No caso de tratamentos que englobam o uso de medicamentos, existem fases: fase de introdução do medicamento / fase de manutenção / fase de descontinuação (quando possível e indicada).

O importante é nunca se automedicar e sempre seguir a orientação médica.

Então, busque um médico psiquiatra de sua confiança e discuta com ele os seus receios e crenças sobre os medicamentos.

Durante a consulta, tire todas as suas dúvidas!

Dica: leve as dúvidas anotadas, para não deixar passar nenhuma.

Se sentir seguro e confiante com o tratamento é o primeiro grande passo para que ele seja efetivo.

Fontes Bibliográficas

  1. Organização Mundial da Saúde (OMS) – Mental Health and Substance Use. Disponível em: https://www.who.int
  2. American Psychiatric Association (APA) – Psychiatric Medication. Disponível em: https://www.psychiatry.org
  3. Manual MSD – Uso de medicamentos psiquiátricos. Disponível em: https://www.msdmanuals.com/pt/profissional
  4. National Institute of Mental Health (NIMH) – Mental Health Medications. Disponível em: https://www.nimh.nih.gov
  5. Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) – Orientações sobre medicamentos psiquiátricos. Disponível em: https://www.abp.org.br
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Dra. Laura Trevizan

Psiquiatra